A-Culpa-é-das-Estrelas

A culpa é da dopamina?

Sobre a competiçãoentre as mulheres

Nem sempre o instinto de competição é negativo. Quando usado positivamente pode alavancar negócios e provocar o desenvolvimento profissional pessoal e entre equipes. Quando mal direcionado, pode se transformar em rivalidade o que não é nada saudável. Pode ser destrutivo, antiético e até mesmo, ilegal.

Na natureza, as espécies competem pelos recursos disponíveis (moradia, alimento, água e perpetuação da espécie) para poder sobreviver e, muitas vezes, sobreviver significa eliminar, aniquilar o outro. Esse instinto foi responsável pela conservação da nossa espécie quando o Homem vivia nas cavernas e precisava matar “um leão por dia” para sobreviver.

Bilhões de anos mais tarde, o Homem evoluiu e saiu da caverna; mas a caverna, ainda não saiu dele que continua acreditando que precisa matar um leão por dia para sobreviver. Assim, sob ameaça física ou psicológica que pode ser perda do emprego, do cargo, do status, o medo desperta nosso instinto de sobrevivência e produzimos doses elevadas de dopamina aumentando a frequência cardíaca.

A Dopamina nos motiva a agir em direção à metas, desejos e necessidades e nos dá uma onda de prazer quando conseguimos

Estamos prontos para a luta, sedentos para competir e vencer. Transformamos colegas em rivais deixando que os instintos primitivos dominem. Isso vale para homens e mulheres, igualmente. Porém, desde que o sexo frágil deixou de ser tão frágil e submisso, passando a competir com os homens no mercado de trabalho, a mulher que na pré história ocupava-se somente com a cria, hoje também precisa matar seu leão por dia. Dá-lhe Dopamina!

E foi assim ao longo da minha carreira. Sempre cercada de mulheres e de muita Dopamina, Adrenalina e hormônios. Às vezes, tudo junto e misturado! Quando a chefe era mulher ou a equipe era predominantemente composta por mulheres, sempre rolava uma competição, ciúmes, rivalidade, demonstração de poder ou superioridade.

Certa vez, fui contratada por uma grande agência de PR internacional, para divulgar os atletas embaixadores de uma marca multinacional que participariam de importante competição mundial, na Europa.

Não trabalhava com assessoria de imprensa há algum tempo e estava um tanto destreinada, enferrujada. Na verdade, estava em um momento bem difícil. Estava fora do mercado há um tempinho e minha autoestima estava no chão, literalmente. Assim, não sabia direito o que vestir, como falar e como abordar os colegas.

Imaginem a minha alegria por poder voltar ao mercado representando duas multinacionais tão consagradas! Não cabia em mim de felicidade! Nem me passou pela cabeça que eu trabalharia em uma equipe feminina, altamente competitiva e que me via como uma ameaça por ter mais tempo de carreira e consequentemente mais vivências.

Confiante, coloquei minha roupa mais legal e fui para a entrevista. Cheguei bem antes da hora marcada para aliviar minha ansiedade e demonstrar o tamanho do meu interesse pela vaga. Isso contaria pontos no caso de eu ter que competir com outros candidatos. Era somente um frila, mas eu sabia que tinha chance de ser efetivada. Era meu sonho!

A recepcionista me colocou em uma sala pequenininha onde fiquei por um bom tempo aguardando e tentando controlar a euforia. Enfim, a gerente apareceu com um copo de refrigerante em uma das mãos e, na outra, um sanduíche do McDonald’s. Sentou à minha frente, tão perto, que eu ainda me lembro do cheiro do sanduíche. Falava e mastigava ao mesmo tempo, euforicamente. Elogiava eloquentemente o meu currículo enquanto contava o quanto procurava por alguém com o meu perfil – madura e com expertise. E a conversa foi por aí. Disse que estavam com o cronograma atrasado cerca de dois meses, por falta de uma boa gestão desse job, e que eu teria que ralar muito para alcançar as metas globais. Deixou claro que seria uma corrida e tanto pois vários países estariam divulgando seus atletas e brigariam por um espaço de destaque na imprensa internacional. Todas as plantas da companhia queriam ficar bem frente à matriz.

Claro que eu topei de cara o desafio,mesmo com o fee mensal muito aquém da minha capacidade, necessidade e expectativa. Encarei, feliz da vida, os dois desafios simultâneos – a gigante multinacional cliente da agência gigante multinacional. Mas logo de cara, nos primeiros dias de trabalho, já recebi um choque que me arremessou ao chão. Fui nocauteada!

Chegou a hora do almoço e, como de costume, esperei ansiosa o convite das novas colegas para confraternizar. Estava feliz! Radiante! A equipe era grande, uma diretora responsável por três gerentes e cerca de nove jornalistas contratadas mais 2 free lancers. Quanta gente nova para conhecer! Fui pega de surpresa. Elas foram saindo, silenciosamente, uma após a outra e eu fiquei ali, sem entender nada. Percebi que somente uma delas ficou no salão meio sem graça, assim como eu. Depois soube que isso era uma prática comum, um tipo de boicote. Combinavam o almoço ou happy hour pela intranet, em segredo, porque as “frilas” como costumavam nos chamar, não eram bem-vindas. Afinal, elas nos viam como ameaça ao seu status quo, à ilusão de estabilidade e falso poder.

Esse episódio não me abateu porque meus objetivos eram muito maiores.  Continuei a me dedicar com afinco porque ainda tinha a ilusão de me destacar e ser reconhecida pelo meu trabalho. Mas isso nunca aconteceu. Foram sete meses de bullying que eu aguentei porque precisava voltar ao mercado e aquela oportunidade me colocaria onde eu desejava, mesmo que fosse fora de lá.

Dependendo da ocasião somente as “contratadas” eram convocadas e chegavam rindo, contando vantagens, cheias de brindes e lançamentos das marcas. Nos eventos que eu participava não podia falar com a diretoria nem com os jornalistas mais top “tier 1” como eram classificados.

Nas tarefas do dia a dia a equipe acostumada a “fazer para entregar” muitas vezes criticava meus textos mais elaborados e minha preocupação em revisá-los com cuidado. Na realidade eu usava toda minha experiência para caprichar, acertar e surpreender. Por isso demorava um pouco mais para entregar. Mas a gerente responsável por mim gritava do outro lado da baia, sem cerimônia: “Está demorando muito, traga aqui para eu terminar e despachar logo! ”.

Chegou um dos dias mais esperados por todas, inclusive por mim. A coletiva de imprensa. Apesar de toda rivalidade eu estava confiante no meu sucesso e na virada que daria naquela situação. As celebridades estavam chegando e os convidados ensandecidos com celulares à mão para registrar, postar e compartilhar tudo.

Então, para minha surpresa uma das assistentes da gerente me chamou de lado e pediu com tom carinhoso, que me fez desconfiar, para eu fazer uma “tarefa especial” em uma sala do local do maravilhoso hotel onde acontecia evento. Eu corri para fazer rapidinho e voltar para os holofotes, pois trabalhei muito por esse dia e queria entrar nessa vibe também. A tarefa especial era elaborar uma lista de presença dos jornalistas que faziam a cobertura para enviarmos informações pós evento. Só que eram mais de 300 nomes e eu só consegui sair da salinha quando o último convidado foi embora. Não vi nada! Nem celebridade, nem festa, nem tirei foto com a equipe, nem sequer ganhei o press-kit distribuído para todos.

Acabei sabendo que a “colega” que me deu a tarefa especial é que foi incumbida da missão e maldosamente me mandou no lugar dela. Ingênua, não a contestei.

Nem preciso dizer que os meus 210 dias na gigante multinacional não foram diferentes daquele primeiro dia, do desfecho do evento tão esperado ou do almoço com a equipe que nunca aconteceu.

Hoje, mais experiente, sei que a Dopamina é uma “droga” natural e legal. Age como uma luz vermelha que acende quando o perigo se aproxima. Aprendi que eu não preciso matar um leão por dia nem me digladiar com colegas e parceiros para alcançar resultados e me destacar. Agora mais segura, sei que posso apoiar, ensinar e trocar minhas experiências, sem medo!

Esse artigo foi publicado originalmente no meu canal no Linkedin

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